Friday, September 3, 2010

Débora



Gosto de contar histórias. Minhas. Suas. De outros. São as ações vividas. Os pensamentos realizados as verdadeiras lições. Acompanhados das palavras certas, servem de guia e exemplo.

Quero falar de alguém que foi especial em minha infância. Não tão pequena que não me lembre, nem tão grande que possa dizer que era adulta. Tinha meus 12 anos.

Ela e eu estudavamos na mesma escola. Ela era era alta, esguia e loira. Eu baixa, esguia e morena. Eramos inseparáveis. Dividiamos sonhos, esperança e planos. Ela seria professora, eu engenheira. Ela casaria, teria filhos. Eu, bem, eu sempre muito modesta conquistaria o mundo com a ciência.

Todos os dias sentávamos lado a lado na sala de aula. Estudávamos juntas. Mesmo grupo de trabalho. O nome dela: Débora.

Débora e eu eramos absolutamente amigas. Confidenciávamos tudo uma outra. Ela contando de como achava lindo o menino de olhos verdes e cabelos loiros, Carlos Alberto. Eu dizendo como me sentia triste com o modo que minha família me via e tratava.

Fomos amigas por quatro anos. Até que meus pais resolveram mudar de casa e bairro. Consequentemente mudei de escola e deixei Débora para trás. Não sem antes prometermos uma a outra que continuariamos amigas e quando crescessemos iríamos conhecer o mundo juntas.

Só que criança se distrai. Não pode se mover sozinha. E em minha casa o telefone era controlado. Assim, pouco a pouco esqueci Débora. Imagino que ela também tenha me esquecido. A substitui por Ivone, Carla e outras meninas que passaram em minha vida. Nenhuma tão intima, nenhuma tão próxima. Mas Débora ficou esquecida.

Até que, já adulta, mãe e viajante. Engenheira, engenhosa e escritora. Encontrei Débora em um Shopping de São Paulo. Foi um susto. Um susto porque ela estava envelhecida, abatida, em uma cadeira de rodas.

Olhei e pensei. O que aconteceu com os olhos verdes? O cabelo loiro? A altivez? Temos a mesma idade, só que ela parecia minha mãe!

Conversamos. Relembramos nosso tempos. Nossos sonhos. Descobri que ela realizou alguns. Foi professora. Mãe. Nunca viajou. Nunca saiu daquela casa onde nasceu. Ainda morava lá. Comentou entre lágrimas que começara a pensar em mim nos últimos anos. Curiosa querendo saber o que acontecera.

Deparara com um anúncio de uma livraria sobre o livro que eu acabara de publicar. Pediu ao filho que a levasse lá. Queria tentar, mesmo que através das palavras no papel, recuperar um pouco de nossa amizade. Curiosamente nos encontramos.

Ela então falou do seu tempo. Tempo que estava acabando. Tempo que não tinha mais. Seu corpo estava deteriorado, atacado por algo ainda sem resposta. Ainda sem solução. Ela lutara anos, mas agora desistira. Iria viver o tempo como se fosse o melhor. Saia quando podia, sonhava quando tinha forças.

Olhei para ela é vi o quanto perdêramos. De nossa amizade. Nosso companheirismo. Apenas por termos nos deixado mergulhar na rotina da distancia. Não tinha mais todo o tempo de quando éramos jovens, nem o tempo da idade madura, pois o tempo para ela era um instante agora.

Passei a mão em seu rosto. Toquei-o com meus lábios. Não houve lágrimas em meus olhos. Combinamos de almoçar na semana seguinte. E nos despedimos. Ao olhar para seus olhos vi, num relance, os mesmos olhos da menina. Parecia que nosso encontro acendera a luz, mesmo que por apenas um átimo.

3 comments:

  1. Lindo amiga!!! o que mais pode ser dito? Tantos amigos deixados no passado mas que são tão presente na nossa memória...incrivel como nosso coração nos prega peças! Vcê me fez pensar nos meus OBRIGADO!

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  2. Heleny, minha querida, estou comovida!Como vc tem o dom de colocar toda sua emoção através das palavras...Essa história não é só sua! É também minha e de tantas e tantas pessoas...Quantas promessas fazemos quando crianças, quando jovens... Às vezes me pergunto: por que mudamos tanto? Por que endurecemos nossos corações? Por que deixamos de sonhar? De acreditar em nossos sonhos? Por que desistimos da vida? O será a vida que desiste de nós?!? Difícil responder... A minha certeza, neste momento, é que suas palavras sempre me conduzem à reflexão. E isso é maravilhoso!!!
    Um abraço forte e carinhoso!!!
    Sua amiga, Debora Lúcia

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