Friday, November 27, 2015

Delírio


A lareira está acesa. A sala aquecida traz a sonolência do dia nublado e cinzento do outro lado da janela. A xícara de chá verde esfria sobre a mesa azul ao lado do sofá. Eu estou perdida em pensamentos, muitos dos quais não consigo compreender a origem.

Fecho os olhos. A lembrança de um seriado que estou acompanhado, “The Following”, faz com que a ideia floresça sem muito esforço. Cresce em mim a ânsia de saber, quero receber em meus circuitos cerebrais a sensação. Sentada no sofá de couro preto com as chamas azuis e alaranjadas tremulando diante de meus olhos, eu aspiro saber como é ter uma faca enterrada em meu ventre. Mórbida? Depressiva? Não, é pura e simples curiosidade. Não existe a intenção da morte, não é solidão ou loucura, apenas sou assim, de repente do nada vem o desejo de experimentar o extremo.

Foi esse desejo que me fez abandonar tudo e seguir para o outro lado do mundo. Eu dava a morte como certa, afinal me lançava aos braços de um homem desconhecido, um ser que haviam me alertado para evitar. Os conselhos de alguém sobre o modus operandi dele, de como enredava suas presas e obtinha delas o que necessitava, nem mesmo isso foi o suficiente para me afastar desse mergulho. Me deixei levar. Forma 115 dias provocando a morte, tentando restabelecer uma conexão com a vida.

Foi assim toda vez. Ao saltar do avião no nada, tendo apenas o ar ao redor, a esperança era que o pára-quedas não abrisse.Voando em um balão em direção ao pôr do sol, imaginava ele caindo, em virtuosa comprovação da lei da gravidade. Em uma saudação a Newton talvez eu ficasse face a face com a morte. Tudo se repetiu nos vôos secretos de helicóptero, nas buscas por amantes sem nome, sem rosto, apenas com desejos.

A cada escalada, mergulho, pulo, eu buscava sentir que era capaz de sobreviver, superar, ser eu. Tenho cicatrizes de cada tentativa.


Hoje o delírio foi conduzido pela curiosidade. Não, não se preocupe, não vou tentar. Isso não significa que a curiosidade não persista.  Fico então, sentada, ouvindo Mozart, apreciando o fogo na lareira, deixando o calor do Earl Gray escorregar pela garganta, imaginando em como seria ter uma faca enterrada em meu abdômen.

Tuesday, November 10, 2015

Salto


Rochas cinzentas rodeavam o local, ela subira até o ponto mais alto. Estava parada sobre uma pedra grande, lisa e coberta de limo. Dali avistava o templo de Athena, sabedoria e guerra, como os confusos sentimentos que a assolavam. O vento cantava canções duras em seus ouvidos. Era inverno.

Aqui e ali, pingos desesperados caiam do céu, tocando com violência a superfície do lago e o rosto dela. As roupas negras estavam encharcadas, o cabelo escorrido cobria parte de seus olhos. O cabelo era um manto que a afastava da realidade, a qual se recusava a aceitar.

Ela queria pular, era o que a parte livre dela desejava, saltar no ar como a águia que observara durante a subida. Voar até o fôlego quase acabar, pousar em alguma outra montanha desconhecida e depois recomeçar. Ela questionava a razão da sabedoria não permitir a ação que acabaria com a ansiedade. Ela não compreendia muito dela mesma.

Os olhos se alongaram para o templo. A chuva passara e, como o domínio dos deuses são incompreensíveis, Selene – a lua – aparecia enorme no céu.Ela coroava o templo de Athena e o banhava em uma luz que variava do branco-prateado até o vermelho-dourado. Selene estava feliz, sua radiância  deixava claro que estava ali a espera de seu amante; do único amor que desejara.

Selene e ela eram tão semelhantes. Ambas amaram homens impossíveis, ambas pagaram o preço desse sentimento que diziam ser humano, mas que ela sabia provir do universo.

Ela sentou na pedra para apreciar o espetáculo. Sabia que ele – o homem que amava -  se encantaria com a espontaneidade da deusa, ficaria lisonjeado com o prazer que a contemplação lhe proporcionava. Enquanto ele mergulhava na lenda, elas observariam a ele. Selena e ela.

Abraçou as pernas como querendo acalmar o coração  que agora pulsava tão forte e rápido que os tambores o invejariam. Ela invejava a águia e Selene, ela era invejada pelos deuses. Ela, mortal ou imortal, dependendo do olhar, despertava o ciúme e o desejo de Hera. A ambigüidade que existia em cada fibra do corpo dela exercia poderosa atração nos deuses e deusas, humanos – feminino e masculino. Ela apreciava essa capacidade de tocar o profundo instinto do desejo neles, mesmo que o seu tivesse sido despertado por um único homem, mortal, monótono, previsível, covarde.

Ela não sabia o que fazer com toda a tensão que seu corpo acumulara nos anos que passara distante daquele lugar. Talvez gritar ou pular para o solo escuro e imprevisível fosse a opção que a tornaria normal. Normal. Ela não gostava de ser normal. Ela queria ser apenas ela e nada mais.

O céu abrira, da escuridão do lago de Selene ela podia ver as estrelas piscando no ritmo de um tempo que já passou. Distantes, elas eram tão distantes...

Ela se levantou, quem sabe conseguisse chamar a atenção de Pegasus e, montada em seu lombo, cruzar os céus noturnos até o salão de ouro dos deuses. Ironia, toda essa poesia fluía dela, ela sabia que era apenas isso, poesia. Não existiam deuses, Selene era apenas um punhado de minerais flutuando no espaço, mantida ali por forças, pelo equilíbrio desequilibrado do universo.

Uma estrela cadente riscou o céu. Ousaria ela fazer o pedido?  Teria o atrevimento de se deixar levar pela crença? Pelos caminho fácil da esperança? Não, essa não era ela. Se ele estivesse olhando o mesmo céu ao lado dela, neste momento ela o beijaria. Um beijo profundo, misturando cada célula, cada bactéria e sentimento, acompanhado de seus braços ao redor do pescoço dele que permitiriam que suas mãos acariciassem seu cabelo.

Ele não estava presente, era passado. A ausência dele era resultado das escolhas que ele fizera. Ele preferira a farsa, a facilidade da rotina. A falta de perspectiva o levara a outro lugar, onde ele navegava para terras conhecidas, de deuses inclementes, regras inquebráveis e faz de conta de felicidade. Ela sabia que ele acreditava ser feliz. Ela preferia assim, a ignorância pode ser alguma coisa boa para alguns.

A lua se punha, o sol logo tomaria seu lugar. Helius em sua carruagem de fogo cruzaria o céu em todo seu esplendor, ofuscando a irmã e a luz dos quasares distantes.  A hora chegara. A decisão precisava ser tomada. Saltar ou ficar? Aceitar ou lutar?

Ela sorria, enquanto o horizonte se pintava de vermelhos. Não, ela não iria escolher. Iria continuar nessa misteriosa encruzilhada entre a realidade e o sonho, entre o que tinha e o que desejava. Talvez a permanência nessa linha tênue lhe proporcionasse inspiração para viver.


Levantou e fez uma reverencia ao sol. Olhou ao redor mais uma vez. Pulou.

Friday, November 6, 2015

Conversa



Ela sentou de frente para ele no pequeno café. Era uma rotina eles irem até lá nos fins de semana, algumas vezes conversavam animadamente sobre assuntos mundanos, outras... Essas outras eram o grande problema, eram explosão de raiva (dele) e tédio (dela). Ele sempre acusando de forma velada, ela fingindo que não entendia, queria ouvir a acusação dita em voz alta, não através de metáforas. Eles gritavam um com o outro, mas continuavam a caminhar juntos.

Naquele dia seria diferente, ela descobrira o que ele andava fazendo com seu Facebook. Ela descobrira por acaso, nunca fora de bisbilhotar as coisas dele a procura de provas de nada. Ela não acreditava em traição mais, um dia, como todas as outras ela apontara o dedo dizendo que não aceitaria uma, hoje a maturidade lhe deu  ferramentas para ver tudo de outra forma. Ela sabia que esse jeito simples de encarar esse tão terrível pecado – o adultério – deixava muitos com o rosto contorcido em desagrado. Ela não se importava com os outros.

Ele sentavam na área ao ar livre, mesmo com o vento frio, era agradável pegar um pouco do sol que aquele dia proporcionava. O cappuccino, forte como sempre, fumegava diante de ambos., ela queria falar, só não sabia como começar. Como falar com alguém que era incapaz de qualquer empatia pelo outro. Ele sempre fora alguém egoísta, era Possível perceber isso no relacionamento com o filho. Mesmo o menino precisando do apoio dele incondicionalmente, as necessidades dele vinham primeiro. Ele não era um mau pai, apenas um pai que não conseguia encontrar os momentos centros entre presença e ausência. Ele compensava dando coisas. Ela observava e tentava não se intrometer, ele não ouviria de qualquer forma.

Ela queria muito por um ponto final naqueles mais de cinco anos de uma revolta velada que ele sentia por ela, pelas atitudes que ela tivera naquele passado não tão distante. Ele não compreendia, mais ele não percebia o quanto, no tempo em que estiveram juntos em outro mundo, ele construirá, pedra por pedra o caminho que a levara até os atos que ele tanto deplorava.

Ele se conheceram por acaso. Ela não pode dizer que foi amor a primeira vista, não, hoje ela percebe claramente que não foi. Tanto ele quanto ela apenas desejavam vingança contra os ex. Eram jovens, e jovens raramente pensam com o olhar no futuro. No entanto, eles tinham muito em comum, inclusive a família disfuncional. A dele, ensinara ou melhor, moldara a ele como um robô, sem sentimentos, sem relações afetivas. Ele era capaz de dialogar com os pais da mesma forma que o fazia com seus professores, formalmente, impessoalmente. Ela era toda emoção, gritos, tapas, beijos arrebatadores, fantasias avassaladoras. Ela queria um parceiro, ele uma saída. Foi assim que ficaram juntos.

No entanto, ele não amadureceu com a evolução do relacionamento, ao contrario, tornou-se mais e mais contundente em suas postura de critico mordaz das atitudes pueris e proletárias dela. Sim, ela não estava no mesmo nível que ele. Ela deixava suas emoções guiarem sua conduta na vida, fosse em momentos privados, fosse em público. Ela falava o que pensava, ele não apreciava essa postura. Ele silenciava, ela gritava. Ela pressionava, ele fugia.
Assim viveram mais de uma dezena de anos, com ela sendo empurrada ao limite ano após ano. Saída de uma família que a chamava de esquisita, fracassada, ela acabara nas mãos de outra que a qualificavam como inadequada dos pés a cabeça, da alma (que eles acreditavam existir) a mente (que ele pensavam não ter muita utilidade em uma mulher). Ela não usava roupas femininas – botas e caças jeans, camisetas e carteira no bolso – ela não tinha uma bolsa, muito menos um lencinho para colocar dentro dela. Não gostava de jóias, nem de maquiagem, nem das futilidades que se conversavam à mesa. Ela era um ser humano deslocado em uma casa de bonecas.

Ele tentou encaixá-la, ela fez de tudo para agradar aquele que passara a amar. Sim, o amor apareceu. Foi despertado pelos momentos de felicidade nos poucos passeios que fizeram juntos – ele era do tipo sexo e restaurante, ela queria montanhas, mar e quem sabe o céu -  eles conversavam sobre ciência, história, assistiam a filmes, documentários que depois passavam horas discutindo. Ela lia, ele nem tanto. Ambos trabalhavam, a convivência não era tão constante.

Até que, ela resolveu criar uma empresa e acreditou que poderia chamá-lo para trabalhar com ela. O erro não poderia ter sido maior. Nos quase 3 anos que trabalharam juntos dia apos dia, ele fez de tudo para minar a confiança que ela tinha em sua inteligência, beleza, na capacidade de gerenciar pessoas, clientes. No final, ele destruiu tudo, com seus sonhos exagerados, suas covardias, e acima de tudo com sua inabilidade de se colocar no lugar do outro. Ele fracassou, e foi compensado pelo prazer de fazer ela fracassar. Ela não aceitava.

Ela tentou construir um relacionamento mais permanente, ele aceitou a ideia. Mas, a perda dos filhos trigêmeos fora um tipo de veneno, mortal em um relacionamento normal, imagine em um como o deles. Ela foi crucificada, todos a culpavam, não mais do que ela. Ela sempre fora tão cuidadosa com tudo e agora perdera o que desejava – assim ela pensava. Ele colocou a dor dela em uma caixa, fechou a chave e jogou fora. Proibiu a mãe de chorar os filhos mortos, de sofrer, falar e sentir. Ela aceitou. Ela sempre aceitava, ainda existia esperança que ele a ouvisse, mesmo que fosse aos tapas, socos, aos gritos. Ela pedia socorro em cada atitude, ele a ignorava.

Ela sempre fora uma mulher bonita, agora parecia um ser envelhecido, cansado e infeliz. Ele nem notava. Ela sabia que ele tinha seus casos, flertes fora de casa. Passava horas por ai, sem explicar muito onde estava. Escondia-se no escritório – de ambos, mas que ele nunca aceitou ser dela também -  e ficava brincando de empresário, enquanto ela se consumia em culpa, dor.

Ela tomou um gole do cappuccino, e olhou para ele. Ele ouviria tudo isso? Provavelmente, mas nunca aceitaria. Ele nunca contaria o lado dele da estória, nunca se colocaria no lugar dela. Ela tocou a mão dele, ele sorriu. Ele não imaginava que ela sabia da outra – essa agora virtual – dos 1527 beijos por todo corpo que el dissera que essa outra devia a ele, nem dos sonhos que ele tinha de acordar ao lado dessa estranha mulher. Ela não queria acusá-lo, não queria julgá-lo, mas pensava o quanto daquilo não era um troco. Ele falava para a outra de coração partido e nunca foi capaz de perceber o quanto, durante duas décadas, foi quebrando e jogando fora o ‘coração’ dela. Ele nunca percebeu que ele a empurrou para o abismo, ele e apenas ele poderia ter evitado que ela pulasse Até isso ela teve que fazer sozinha. Quando se viu tão desesperada, quando percebeu que seria capaz de matar o próprio filho que havia nascido depois de tanto trauma, para impedir que el vivesse na mesma miséria que ela. Só então ela percebeu que precisava escapar.

Como? Ela procurou na fantasia – como talvez ele fizesse agora – no virtual o que não tinha no real. Ela sabia que era apenas criação sua, do outro lado não havia um ser real – embora o outro fosse bem real – mas uma idealização que ela fazia de um homem, de um parceiro. O outro lhe trazia flores (virtuais), dava palavras que a fazia se sentir mais mulher, mais completa. O outro, que na verdade estava apenas jogando, lhe dava a esperança de sair do buraco onde se encontrava.. E ela mergulhou nesse pseudo relacionamento sem limites.

O mergulho foi tão fundo que ela percebeu que precisaria falar com ele (o marido) e contar o que estava acontecendo. Que eles não eram mais viáveis, que ela não agüentava mais a vida que levava de culpas, criticas, falta de tudo – material e emocional – e ela exigiu. Exigiu um tempo sozinha, longe, tão longe quanto fosse possível. E ela foi, e voltou.


Sim, ela voltou. Em primeira instancia, ela pensou que houvesse sido por causa do filho – o menino era autista e precisava de alguém com o mínimo de capacidade de organização para ajudá-lo a se adequar a vida social – depois ela pensou que fora por causa dela – dinheiro continuava a ser um problema em sua vida – e no final, quando ela viu as mensagens deles (do pai do filho e da ‘namorada’ virtual) ela se deu conta de que era por tudo isso e por ele também. Por aquele homem incapaz de ter empatia. Um homem que nunca estava errado, egoísta até o ultimo segundo do dia – ele era capaz de comer o doce do filho ou de deixar o filho passar necessidades apenas por ser incapaz de ceder um pouco do que tinha para ele – fora esse homem que lhe destruirá e, ainda assim, existia uma grande preocupação dela por ele. Amor? Ela não sabia, ele continuava a ofendê-la, criticá-la, a jogar tudo que ELA havia feito. Ela? Sim, do ponto de vista dele era somente dela a culpa. Ela a julgara e a punia – todos os dias – e ela se calava – pelo filho, por ela, por ele – ela tentava. Mas agora, agora ela queria falar. Mesmo sabendo que de nada adiantaria, ela queria gritar seu ponto de vista e dizer que ele era livre para viver suas fantasias, e mesmo assim, ela continuaria ali. Até quando o sol se pôr, o filho crescer e quem sabe, ela fechar finalmente os olhos e pular do abismo.

Monday, November 2, 2015

Paris


Eu sempre acreditei que não éramos uma singularidade. Na verdade, olho para nós como o resultado de uma reação química. Elementos certos, sob circunstâncias adequadas e tempo. Meu olhar diferia muito dos crentes que nos viam como únicos, escolhidos.

Eu não era um crente. Tivera na vida momentos suficientes que, se não provavam definitivamente a inexistência do divino, deixaram claro que as probabilidades eram pequenas, tendiam a zero. Essa era a razão de  me ater somente ao que era provado ou estatisticamente possível.  O resto era perda de tempo e ilusão.

Quando os outros, os crentes me olhavam era com desprezo, desconfiança. A desconfiança é um tipo de refrator, desviando a verdade e colocando no lugar fantasias, preconceitos e medos. Nunca me importei com eles, por que iria? Nenhuma pessoa valia a exaustão que me assolaria ao tentar explicar. Melhor deixá-los com suas fugazes esperanças.

Você talvez me classificasse como ateísta, eu preferiria não  ser classificada. Minha escolha era a solidão do indefinido.

Lembro do dia em que conheci você naquele café em Paris. Eu degustava com calma um chocolate quente acompanhado de uma baguette com queijo. Nunca havia experimentado nada igual. Simples, mas em perfeita harmonia. Como aquele dia.

A neve deixava tudo mais belo. Eu sentara bem perto da grande janela que dava para a pequena rua escondida em Île de La Cité. Eu gostava de lugares assim, publicamente escondidos. Desafiadores. A rua abrigava dezenas de lojas de arte, antiguidades e livros, paixões que nunca pude saciar. Dinheiro sempre foi um problema em minha vida, sem ele tudo ganha uma perspectiva diferente.

Eu era do tipo de sofria quando lia a notícia de um leilão onde algum Picasso, Miró, Monet ou outro pintor que eu apreciava era comprado por milhões – que eu nunca teria -  por alguém que o fazia apenas pelo prazer de ter o poder de fazê-lo. O sofrimento era minimizado quando o quadro acabava na parede de algum museu.

A frustração era maior quando se tratava de livros. Eu sonhava com primeiras edições, com manuscritos de grandes mentes como Newton, Einstein, Da Vinci... Eu daria tudo para estar perto, tocar com as mãos essas preciosidades. Talvez a química que eles deixaram impregnadas no papel pudesse ser absorvida, e tudo que existia de ideias e projetos dentro da minha mente, explodiria.

Estava nesse emaranhado de pensamentos quando você entrou. O casaco preto lhe assentava bem. Olhei com curiosidade, você e eu vestíamos roupas muito semelhantes. Botas pretas de combate (mesma marca!), um pulôver de gola alta (turtleneck) em caxemira também preto, calças jeans pretas e um cachecol de lã cinza. Éramos os lados opostos de uma mesma moeda de estilo, você o masculino e eu o feminino.

Você pareceu perceber o  meu olhar, pois virou a cabeça em minha direção e sorriu. Abaixei o olhar, apesar de gostar de observar as pessoas, não gostava de ser observada, nem que percebessem que eu observava a eles.

Escutei quando fez seu pedido. Você teria visto surpresa em meu olhar se tivesse olhando em meus olhos.  Chocolate e baguette com queijo, coincidência que ficava maravilhosa e mais intrigante quando dita em Frances. Seu impecável domínio da língua deixou claro que era um nativo. Era uma hipótese que suas roupas ajudaram a construir, o som de sua voz foi a confirmação final.

Você pegou a bandeja e seguiu em minha direção. Havia uma poltrona confortável de couro preta vazia em frente ao lugar onde eu sentava. Eu estava totalmente consciente que você se dirigia a ela. Eu levara muito tempo para me habituar ao estilo europeu de compartilhar. Essa noção de que um estranho pode sentar no mesma mesa, no mesmo espaço que você, só pode ser compreendida sob a ótica da necessidade de aproveitamento de espaço. Nenhum lugar livre pode ser desperdiçado.

Você perguntou se podia se acomodar. Nossos olhares se cruzaram, como as ondas causadas por diferentes distúrbios se cruzam na superfície de um lago. Ondas que se somavam. Respondi em inglês que sim, você imediatamente agradeceu no mesmo idioma. O límpido sotaque britânico me pegou de surpresa.

Continuei meu dialogo mudo com o ser imaginário que criara para diminuir a solidão que sentia. Não, minha solidão não era essa comum gerada pela falta de contato com outras pessoas, solidão que aflige metade da população de Londres. Também não era essa simbiose da qual sofre oitenta por cento dos brasileiros, que simplesmente não conseguem viver sem suas famílias e amigos. Seguindo na contramão desses grupos, eu fugia dos lugares comuns, gostava de estar com poucas pessoas, amava ficar sozinha.

Minha solidão era de ideias. Noventa por cento do mundo era um abismo repleto de rotinas e conformismo, os poucos rebeldes o eram apenas no atos e não nas ideias (e atos sem ideias são como carros sem freios e direção). A humanidade atravessara milênios de inovações tecnológicas, construção e destruição, mas no que se referia ao individuo humano, poucas foram as mudanças.

A mesma motivação para a ‘primeira guerra’ entre ‘civilizações’ repetia-se, tal qual um looping, na história, o que mudava era o armamento. Agora, sequer era necessário olharmos nos olhos do inimigo para matá-lo. Apenas um drone, um míssil e o fim de milhares de vidas, consideradas dispensáveis por alguém que nos era completamente desconhecido e inacessível.

Levantei o olhar. Era sempre assim quando alguém me observava, a mente me avisava aquecendo meu rosto. Naquele momento era você que entre curioso e divertido me olhava com insistência.

Me atrevi a quebra minha própria regra – como se quebrar regras não fosse uma constante e não exceção para mim -  e sustentei seu olhar. Minha mente queria saber mais de você, no entanto me recusava a iniciar a conversa.

Você olhou na direção dos livros que eu colocara sobre a mesa: Crime and Punishment, Jane Eyre, Ms. Dalloway, Philosophiæ Naturalis Principia Mathematica e A Universe from Nothing.

A voz veio quebrar o som monótono e superficial das outras conversas. Você perguntou se eu lera ou ia ler todos eles. Retirei meus fones de ouvido e respondi que "sim, lera",  ao mesmo tempo querendo perguntar a razão do tom de surpresa em sua voz, mas me calando, pois esperva ver como você daria continuidade a conversa.  Sempre achei o ato de perguntar de uma pessoa a melhor forma de a conhecer.

Para minha supresa, você disse que apreciava pessoas que não se intimidavam em misturar frutas e destilados. Sem conter o sorriso, você se apresentou como Louis. Eu não disse me nome, essa era uma informação que você precisava merecer.

Novamente a surpresa, você não perguntou meu nome, apenas abriu a mochila de couro preta – outra coincidência – e tirou dela os mesmos cinco livros. Algo  dizia que isso tudo não era coincidência. Apesar de acreditar no acaso, desde que nos percebemos neste café, a soma de coincidência ultrajava as probabilidades. Números não gostam de serem ofendidos.

Você colocou os livros sobre a mesa, comentou que nunca conhecera uma mulher que fazia as mesmas misturas, apreciasse as mesmas combinações excêntricas. Apontou para os livros e abandeja. Sim, livros e alimento.

Você então pergunta o que acho do mundo, de nossa civilização.

Congelei, a mente processava a pergunta lentamente, sem querer crer que ela era real. Como? O mundo? Nossa civilização?

Eu tinha apenas uma palavra para nos descrever: escravos. Éramos escravos de nós mesmos. Você me olhava sem emitir nenhum comentário, apenas  acompanhando com o olhar. Eu esperava isso, você desejava que eu elaborasse mais. Sim, somos escravos. Nossa escravidão começou no exato momento em que criamos nossos deuses (ou deus) e passamos a crer que alguns de nós têm privilégio no relacionamento com esses seres (ou ser).

Pouco a pouco, nossa ignorância foi não só intensificando essa criação, mas também atando a divindade ao pode. Rapidamente deuses e reis se uniram, sacerdotes em suas relações pessoais com os deuses endossavam a divindade do rei/governante, quando não eram os mesmos.

Nos dias atuais, os deuses são apenas ferramentas, espécie de máscara para o verdadeiro deus da atual civilização. Um deus sem rosto, sem orações, sem liçoes. Um deus que toma, engana, mata e continua.

Nunca acreditei em igualdade absoluta, mas tamb;em não consigo aceitar que um por cento da população do mundo, tenha poder suficiente para aniquilar os outros noventa e nove por cento.

Aceitamos que as coisas sigam assim. Criamos mentiras em todos os estágios de nossa vida. Cremos em milagres, honestidade e que políticos são políticos – como se eles serem como são fosse inevitável. Mentir faz parte dos negócios – sejam eles de que área forem – culpar outros pelos fracasso é outro elo em nosso grilhões de escravos. Toleramos as injustiças desde que elas não atinjam a nós. Convivemos com guerras e as justificamos, enquanto não é nossa casa que é destruída, nem nossas família que morre. Acreditamos que viver é consumir, não o alimento que sustenta a vida, mas algo que acreditamos nos fazer superior a outros. Não lutamos pela educação tão bravamente como pelo direito de consumir. Deixamos que nos governem em nome de deuses, mentiras claras e perigosas.

Parei. Sempre que falava desse assunto eu vomitava, tal qual um ébrio saindo de uma ressaca.  Agora percebia que despejara demais nos ouvidos de um desconhecido. Poucos tinham paciência para minha oratória.

Baixei os olhos. Eu queria me encolher na poltrona e voltar ao meu silêncio. Queria continuar com meu dialogo pessoal, sem que dois olhos cinzas tentassem descobrir o que eu pensava.

Quando você falou, as palavras bateram em ouvido surdos. Eu não queria sua opinião sobre o que eu havia dito. Nem seu ponto de vista fora requisitado. Minhas palavras haviam sido um monologo em voz alta, como muitos que fazia quando estava sozinha em casa.

Lentamente permiti que o som de sua voz entrasse em meu mundo. Você não estava rebatendo, justificando ou mesmo concordando com o que eu dissera. Você  perguntava se eu tentara expor minhas ideias para outros.

Sim, eu havia tentado, muitas e muitas vezes. Nos empregos nos quais me envolvera, como professora que de repente me tornei, em todas as relações que tivera. Minha vida havia e era, perseguir e encontrar alguém que  ouvisse. Até então, nada acontecera.

Você me olhou tristemente, havia algo em seus olhos que ainda não compreendia. Por mais que deixasse minha mente livre, não alcançava o significado de você.

Terminamos nosso chocolate em silencio. Cheguei a conclusão que havia assustado você como a todos antes. Levantei. Coloquei meu casaco, ajeitei o cachecol e sai do café com um ‘au revoir’. Eu nunca encontraria alguém disposto a ouvir. Existiam no mundo dois tipos de pessoas: as que comandavam e as que obedeciam. Eu não me encaixava em nenhum dos dois tipos. Eu não me encaixava no mundo. Pensei que nunca encontraria você novamente.

Eu olhava a catedral, Notre Dame, foi quando sentiu uma mão apertando meu ombro. Não me assustei, poucas vezes senti real medo. Era você. Virei, ficamos frente a frente. Você sorria e dizia que queria mais das palavras que eu havia despejado tão ansiosamente em seus ouvidos. Olhei com descrença. Queria mais? Queria sexo? Uma noite de diversão?

Você parecia ler minha mente. "Não," - disse - "não queria sexo, embora torcesse para que um dia acontecesse. Queria as palavras."

Começaram então outras surpresas. Você era um editor, queria que eu contasse minha visão, a história que eu parecia compreender  melhor e diferentemente de outros. Eu não conspirava, não culpava, eu via apenas os padrões que eram muitas e muitas vezes desqualificados pelos especialistas.

Você queria minha mente no papel. Eu não queira. Medo. Onde começar? Como escrever? Eu era melhor com meus pensamentos solitários, a retórica explosiva e urgente, do que com palavras escritas.  Você disse que  ajudaria. Pensei que esta poderia ser a solução. Pegaria minha solidão e compartilharia com outros. Talvez ela, a solidão, diminuísse.

Você não me prometeu nada. Nem dinheiro, nem fama, apenas a oportunidade de escrever minha visão do mundo.


Olhei em seus olhos e me apresentei: “Obrigada pela oportunidade. Meu nome é Helena.” Você apertou minha mão e disse: “Eu sei.”

Thursday, October 22, 2015

Neve


Ela acordou cedo. Era incompreensível à seus sentidos a razão pela qual a cama parecia tão desconfortável. A cama é sempre atraente no inverno, especialmente quando a neve se faz presente não existe melhor lugar para apreciar os flocos de neve que se amontoavam em pequenos montes em seu jardim. Ela era tocada pela beleza das árvores vestidas em gala para as festas, não religiosas, mas das pessoas e suas esperanças.

O pequeno Spaniel entrou no quarto. Não importava o clima do outro lado da janela, ele queria seu passeio matinal. Para o pequeno cão, esses momentos eram um pulsar de energia. O momento no qual ele se libertava da sonolência do inverno, perseguindo esquilos, pombos e algumas aves aquáticas que insistiam em permanecer no lago.

Permanecer. Ela não era um ser de permanências. Era volátil como o éter quando exposto a atmosfera. A mulher que era não atracava em nenhum porto, muito menos criava raízes, por mais fértil e belo que fosse o terreno, por mais amor que sentisse por aquelas caminhadas matinais, pelo lugar no qual vivia. Havia um senso de não pertencer que era, do ponto de vista dela, a sua melhor parte.

O cão pulou na cama, insistente como uma criança no dia de seu aniversario. Ela deixou a cama quente pelo frio do quarto. Os aquecedores permaneciam desligados durante a noite. O duvet e os lençóis eram suficientes para aquecê-la. A verdade é que nunca precisara de calor para se sentir aquecida, havia nela um tipo de calor interno que se fazia suficiente.

Vestiu a calça e a blusa de lã, ambas pretas, uma cor que absorvia a luz e permitia ressaltar outras cores sobrepostas a ela. O casaco cinza forrado de pele (falsa como o anel que recebera um dia e estava guardado em sua caixa de Jóias) e as botas impermeáveis, completavam o vestuário. O pequeno cão se agitava a seus pés, ela olhava para ele carinhosamente, enquanto calçava as luvas e colocava o chapéu na cabeça. Chapéus foram uma das aquisições locais, ela sempre gostara deles, mas em outras terras, outros momentos de sua vida, a oportunidade de usá-los não parecia concreta.

A caminhada até o local onde o pequeno Spaniel poderia corre livre aquecia seus membros. O cão corria, espirrando a felicidade da liberdade por todos os lados. Ela serenamente caminhava, colhendo com seus sentidos toda beleza disponível. Ela sempre se encantara com a disponibilidade da natureza. Como se a existência humana tivesse tornado ela, a natureza,  ainda mais vaidosa e exuberante.

Um esquilo foge apressado para a segurança dos galhos mais altos. Ela pensa em quanto despreza a segurança. Talvez seja esta a razão, esse desprezo, que a Lea a queimar todas as pontes de seus caminhos passados. Ela quer a inevitabilidade de seguir em frente, sem opções.

Uma pomba pousa perto da cerca que separa o caminho onde a mulher se encontra e o lago. Elas se observam com curiosidade. A mulher deseja tanto a liberdade de partir da pequena ave cinzenta. A ave ambiciona apenas as migalhas e a mulher oferece. Desejos compulsivos, sendo apenas um deles imediatamente saciado.

O cão se aproxima cansado de suas explorações pela vegetação, ele quer um tempo para recuperar a energia e um pouco de água. Ela segue em expectativa para o café que existe no local. Um cappuccino e um pain au chocolat estão em seus planos. O café irá estimular ainda mais sua mente, o chocolate, transformar o amargo que traz consigo em algo mais adocicado.

Ela não gostava de café antes. Mas antes e depois são dois estados seus que não precisam ser um continuum. Agora, neste exato momento, ela saboreia a mistura de café e leite, acompanhado de musica e ideias. O pequeno cão descansa a seus pés. Ele espera pacientemente pelas guloseimas que virão. Ela pensa em como não é paciente.

A cada dia cresce a necessidade pelo novo, por mudanças e outras imagens. No entanto, ela reconhece que o esforço para obtê-las tem sido pequeno. Teria se acomodado? Estaria envelhecendo?

Idade não representava um numero para ela. Estava mais ligada a sensação de ainda existirem possibilidades a frente. Ela ainda escalava montanhas, andava de bicicleta, nadava, e era capaz de dançar toda a noite com o mesmo vigor de sempre. Não havia cansaço em seu corpo, e o rosto, embora não tão jovem quanto aos 20 anos, não registrara todos os momentos que enfrentara, mesmo sem ter um retrato como Dorian.

O cappuccino foi consumido com o devido prazer. Era o momento de voltar para casa e retornar ao trabalho. Sendo sincera, o trabalho que ela escolhera era mais um tipo de terapia, de lição de autoconhecimento do que trabalho.  Ela observou um cisne pousar no lago. Beleza e força. Ela mantinha as duas qualidades acesas, assim como a juventude da mente.

A neve caia agora com furor. A intensidade daqueles pequenos flocos brancos a levaram a olhar para o céu.  Tão belo...

Ao chegarem em casa, ao abrirem a porta do abrigo que escolhera, o calor envolveu o corpo de ambos: ela e o cão. Eles agora compartilhavam o aquecimento, assim como a beleza da nevasca pela janela. A musica fluía com a mesma suavidade que os flocos pousavam nas folhas das poucas árvores que teimavam em mantê-las.

O pequeno Spaniel deita confortavelmente em sua almofada. Ele vai sonhar com charcos, aves aquáticas e grandes caçadas. Ela senta em sua poltrona preferida, perto da janela, em uma posição que permite enxergar bem a tela do computador (que prefere no colo e não em uma mesa de trabalho). Começa a digitar, colocando em palavras todas as imagens que sonha,  imagina e deseja.


Friday, October 9, 2015

Eterno Verão


Ela me compreendia como ninguém. Ela era minha segunda-feira desesperada, eu sua sexta-feira ansiada. Não tínhamos muito em comum, da mesma forma que existia muito em comum. Era eu e ela, eu de jeans e camiseta, ela de saia e salto alto. Como se fossemos o dualidade do feminino.

Ela gostava de vinho branco, eu preferia vodka, entre os planos dela estava um MBA em Harvard, nos meus uma viagem ao Nepal. Tínhamos essas distâncias de objetivos, visões laterais de nós mesmas. Não vivíamos uma sem a outra.

Ela dizia que eu era para ela a poça de água para o pássaro sedento. Eu a via como um espelho do que deveria ter sido e não fui. Nós éramos companheiras inseparáveis, separadas pelo preconceito de alguns, impedidas de sermos completas pelo medo de outros.

Enquanto ela piscava para o espelho, passando o batom nos lábios, deixando-os vermelhos, desejáveis. Eu cortava o cabelo, limpando meu rosto do resto de todo tipo de dever. Então, saímos, ela para a direita, eu para esquerda e conversávamos com pessoas, com sons de outros mundos, ouvindo um bater sem compasso de uma mente ansiosa por algo que parecia proibido.

Voltávamos para casa fingindo felicidade, ela contava do novo amor, eu da nova droga disponível no mercado. Então, pegávamos uma cerveja, tocávamos um rock qualquer e dançávamos seminuas pela sala, sem questionar o certo de tudo, nem o errado do nada. Cansadas, caíamos nos braços uma da outra, ampliando um desejo de mergulhar mais, contendo no olhar a boca molhada.

No quarto dela, a cortina branca, os móveis brancos com pequenos toques de rosa. No meu, móveis de madeira simples, sem enfeites, recosto para o corpo cansado do dia. Local de trabalho e lazer solitário. Nós ouvíamos através da fina parede. Ela expressando o desejo contido, eu a satisfação do meu.

E sonhávamos...

Com campos de flores e rios bravios. Com as férias de verão e as noites de inverno. Este ano o verão havia sido na Itália. Ela então, no pequeno traje de banho, desfilara em maravilhoso gingado, deixando gotas de saliva pelo caminho. Eu observara e depois, pegara sua mão e juntas corremos pela praia, em busca do pôr de sol. Nesses dias  o quarto era nosso, e nos abraçávamos convulsivamente, despejando o desejo dos outros dias naquelas tardes e noites de absoluto prazer.

No inverno, na frente da lareira, falávamos do verão. Brilhando nos olhos o desejo de repetir na neve o que nos queimara no sol. Em casa havia sempre o limite, um limite imaginário vindo da perspectiva do outro. Eu esperava pela coragem dela, ela talvez esperasse pela minha.  Enquanto isso, tomávamos vinho tinto, comendo chocolate e assistindo a antigos filmes de amor. Amor que conhecíamos e escodíamos debaixo do cobertor, nas férias de verão, no gozo solitário.

Ela e eu. Sempre seria assim? Esse era o suspense, essa era a grande questão.


Até que, em um dia dos mais calmos e rotineiros, ela voltou mais cedo para casa. Trazia um ajuntamento de flores, uma garrafa de champagne e um brilho diferente no olhar. Ela entrou no quarto que era meu, pegou minha mão com aquele toque de verão. Nossos lábios se cruzaram no silêncio, nossos corpos se tocaram nos murmúrios do desejo. Ela colocou as flores no chão, a garrafa de lado e um anel em meu dedo. Enfim, seriamos dois seres livres, sem segredos e em eterno verão.

Monday, October 5, 2015

Um pequeno cão


Ela sentou na cama pela manhã com a nítida sensação que fora atropelada por um caminhão no dia anterior. Bem, pelo menos ela sobrevivera. Agora, com a mente dolorida, o corpo cansado e a tristeza escorrendo pelo olhar, ela pensava em como seria esse novo dia.

A pessoa que a espezinhara, vociferando palavras que apenas serviam como afiadas ferramentas de tortura, não acrescentando nada a uma relação que tentava renascer. Por que ele se comportava dessa maneira? Esses impulsivos momentos de agressão haviam sido raros no passado, nos últimos 5 anos tornaram-se o comum. Comum como as acusações que ele fazia a ele, veladamente, nunca face a face. Ela estava cansada de tanta ironia, indiretas e julgamentos.

Ele não tinha a ampla compreensão de que fora ele, apenas ele, que a deixara sozinha nos momentos mais difíceis.  Foram suas constantes criticas, as inúmeras vezes que a chamou de louca,. As constantes comparações com a mãe, algo que a magoava profundamente, mais a inércia em suportar as inúmeras humilhações impostas pela família dele, haviam sido a razão que ela se jogara na primeira oportunidade de ter um relacionamento onde os interesses mútuos eram claros.

Relacionamento desse tipo, sexuais, normalmente terminam rápido. Poucos meses e ela queria mais. Ela desejava intelecto, companheirismo, conversas e sexo não era mais suficiente como amalgama àquela relação. Ela tentou de novo, e desta vez errou o alvo, acertou um homem completamente fora de sua razão, alguém que mentiu com tanta freqüência que, ao se encontrarem frente a frente, ela quase teve um ataque de riso.

No entanto, esse louco mentiroso e absolutamente desleal homem, continuou (e continua) a perseguir aquela que el julga ser sua por direito. Ela ignora e continua.

Novo passo em direção de alguém que poderia lhe dar algo, novo erro. Ninguém quer compartilhar parte de si, todos desejam partes dela. Ela cansou.

Voltou para casa, queria ficar sozinha, mas nem isso seria possível. A vida é engraçada e coloca pontos finais onde deveriam haver virgulas e virgulas no lugar de pontos finais. Assim, ela pegou a virgula que ficara suspensa com o homem com que havia vivido por tanto tempo, e continuou. Ele se modificara? Não, Agora, pelo menos, deixava claro seu egoísmo, sua necessidade de se firmar no mundo (para a família dele, para ela) e acima de tudo, a eterna tentativa de torná-la a única vilã da estória. Em alguns momentos ela comprava essa ideia,  na maioria ela sabia que não era bem assim.

Ontem, for um desses dias de flagelação, punição pelo passado imaginado e não o vivido. Ela tentava compreender e tolerar, no entanto, porrada era algo que ela não admitiria mais em sua vida. Tudo começou quando ela comentou da solidão que sentia. Queria muito alguma companhia, mesmo que fosse um pequeno cão. Como se ela tivesse solicitado um amante ou algo assim, a tempestade de insultos, insinuações e agressões escalou de dentro dele para cima dela. Uma explosão vulcânica seria menos danosa.

Ela decidiu falar rapidamente o que pensava, e depois se calou. Para quê? Essas discussões não levavam a lugar algum. Ele nunca conseguia se colocar no lugar dela, ele jamais admitiria sua responsabilidade em tudo que ocorrera. Ele sempre seria perfeito, ela sempre seria incompleta.

Algumas lágrimas teimavam em querer rolar, ela se recusava a chorar por ele ou por causa dele. Ela resolveu sorris, tudo porque ela queria um pequeno cachorrinho para lhe fazer companhia durante as longas horas em que ficava sozinha.


Tuesday, September 15, 2015

Verbo


“Ela não é doce, pare de dizer que ela é! Além disso, o nome que deram a ela não condiz, ela não parece uma suave gota de orvalho, deram o nome da fruta ao caroço, da rosa ao espinho!”
“Oras, foi você que me empurrou para ela! Você me abandonou de todas as formas, fiquei miserável e fui procurar abrigo em alguém oposto a você. Alguém que me obedecia, cujo amor a tornava dependente, obediente, submissa. O seu amor era livre, independente, você me amava e pronto, pouco lhe importava meu sentimento por você.”

“Nunca achei justo impor sentimentos, é sufocante. E você demorou um pouco para encontrar meu oposto.”
“Eu disse, lembra, que eu amava você mais do que você pensava. Falei, olhando em seus olhos, que Allah nunca me daria outra oportunidade como essa, que eu daria tudo para que fosse diferente.”

“Quando você vai entender que você ama quem sou, exatamente como sou? Não é certo. Não é.”
Essa discussão ocorria dentro da cabeça dela enquanto caminhava. Ela colhera cada argumento das inúmeras conversas entre eles. Sentia tanta saudade das discussões, das risadas por motivos banais e dos passeios a lugares repletos do que eles mais gostavam. Por que ele escolhera esse caminho? Que razão levava um homem a jogar tudo no lixo apenas a pedido dos pais, pela convenção social? Ela se ressentia demais das decisões que ele tomara sem ela estar presente. Ele sempre queria ter a última palavra e desta vez fora adeus.

A névoa de outono encobria o caminho, a umidade penetrava na leve blusa de algodão que ela vestia, se ele estivesse ali, o casaco dele já a estaria protegendo. Estaria também discorrendo sobre como ela era irracional ao escolher uma roupa tão leve para um dia de outono. Ele a envolveria com o braço, esfregaria suas mãos que de tão frias perderam a sensibilidade e a carregaria para o Café mais próximo para um çay. Isso sempre reclamando da pouco habilidade dela em cuidar de si.

O caminho continuava tortuoso por entre os inúmeros arbustos e as frondosas árvores do parque na qual ela caminhava todas as manhãs. O Café estava vazio, a chuva fina e a névoas densa afastava as pessoas. A maioria preferia tomar seu café da manhã em um local mais quente, onde a musica tocasse alto e eles pudessem sentar em poltronas confortáveis. Ela não, amava sentar no salão envidraçado que trazia parte do jardim para dentro e tomar seu chocolate quente. Ele tomava um gole e pensava nele.

Lembrava de cada gesto, cada palavra que ele desperdiçara com ela. Sabia que, depois da despedida – que ela não sabia seria definitiva – ele tentara preencher o espaço da vida em comum deles, com outras vidas. Ele escolhera, como ele mesmo dissera, seu oposto. E com esse oposto, percorrera a maioria dos lugares onde eles estiveram, onde ele e ela trocaram olhares cúmplices, onde riram e falaram de sentimentos.

“Não, não acredito que você me esqueceu. Quatro anos passaram e eu continuo a sentir suas mãos no meu ombro e seus beijos em meus lábios.”

Era tolice, ela sabia que alguém como ele esquecia com facilidade, a mesma facilidade com a qual encontrava um substituto.
“Você orou por mim! Pediu que seu deus me protegesse. Apenas esqueceu de pedir a ele que me protegesse de você.”

As lágrimas caiam dentro da xícara. Ela passava por esse momentos de tempos em tempos, desde que eles seguiram seus próprios caminhos. Uma simples flor, uma palavra ou um lugar, não havia nada específico, mas parecia que sempre dava de encontro com algo que fazia com que ela sentisse ele por perto.

“Como vou deixar você?” Ele perguntava quando a despedida se aproximava. “Como vou viver sem você. Imaginar outro homem tocando seu corpo me deixa furioso.”

Ela ria, dizia que era escolha dele deixá-la partir. Se ele pedisse ela ficaria, desistiria de tudo e construiria uma nova vida ao lado dele.
“Não podemos ficar juntos, eu mataria você e acabaria na prisão.”
Talvez, ela pensava, talvez eles não fossem destinados para o “para sempre”, mas ela queria tentar.

Não havia espaço para tentativas entre eles, ele fechara a porta a essa possibilidade. Mesmo nos dois curtos encontros que tiveram, o primeiro em um dia chuvoso de março e outro em um dia quente de maio, mesmo neles ele não deixou que o portão das possibilidades se abrisse.

“Você sabe que eu amo você, não sabe?” Tinha sido a pergunta feita, rapidamente enquanto ele segurava as mãos dela. O irmão que o acompanhara – ela questionara se ele era um tipo de controle – havia saído da mesa por alguns instantes e ele aproveitara para afirmar, a voz ansiosa, as mãos quentes e o sorriso (raro) deixava entrever o dente quebrado e a vontade de ir alem do falar.
No segundo, eles fizeram amor, sexo, seria melhor dizer sexo. Foi rápido, urgente.

“Senti tanta saudade.” Ele comentou antes de penetrá-la com força e iniciar os movimentos ritmados que o levariam ao orgasmo.
“Só com você eu gozo tão intensamente, com tanta quantidade.”
Ela sorria. Sabia que havia sido uma ‘rapidinha’, ele deixara a outra há algum tempo, mas nunca ficara sem um corpo em sua cama. Ele não conseguia. Sexo era uma necessidade, um vicio, tal qual o cigarro de maconha que consumia de tempos em tempos, um tipo de alivio para suas frustrações.
Ela pensava que ele usava a bebida, o sexo e a droga como um tipo de recompensa na vida. O trabalho duro, que exigia física e emocionalmente, a família que não o compreendia, os amigos que o julgavam (e a quem ele julgava também), sua vida parecia um tipo de livro antigo, que fora reescrito para novos personagens. Ela fora, em certo momento, um capítulo inesperado, agora tudo voltara ao normal.

“Você é o homem mais tolo e teimoso que eu conheço.”

A chuva aumentara, ela precisava voltar para casa, decidiu deixar a água gelada molhar suas roupas e seu corpo. Esperava, sinceramente havia essa esperança nela, que a chuva levasse com ela o sentimento inútil que trazia na mente. Quem sabe, as gotas carregassem esse amor sem sentido.

“Você me esqueceu.” Ela olhava para o céu, os braços abertos em um rodopiar no meio da chuva. As palavras eram um grito, um grito que ninguém ouvia. “Você me abandonou, esqueceu, matou.” Sim, ele matara muito dele, com suas ausências, silêncios e indiferença, ele terminara por colocar um ponto final naquele romantismo juvenil que ela ainda carregava.

Não ligava mais para flores, se as queria em casa, comprava, mas não se emocionava quando alguém lhe oferecia rosas vermelhas de presente. Apenas ele fizera isso espontaneamente, rosas vermelhas eram lembranças dele.

O anel que ele dera a ela estava na gaveta, de tempos em tempos ela colocava no dedo e sonhava. Os sonhos estavam ficando mais sombrios, agora ela usava o anel no dia de sua morte.

“Será que quando eu morrer você estará a meu lado?” Ela queria passar o resto da vida dela perto dele, mesmo que esse resto fosse depois da morte. Não, ela não acreditava na vida após a morte, mas adorava pensar que ele saberia que pedaços dela estariam impressos no DNA de cada flor dos jardins da cidade. Tola.

Ela sabia que era tola, estúpida como ele costumava chamá-la. Não havia mais chama, nem ritmo dele para com ela, mão havia musica, nem planos, nem cerveja e rakı. Havia apenas a distancia de sempre, o desamor que tomara o lugar do amor e a sensação de que, alguém perdera o ponto. Agora, era viver assim, esperando cada dia repetir-se, sonhando em cada caminhada, discutindo sozinha e tentando sobreviver o melhor possível, pois viver era um verbo que conjugara apenas uma vez, fora com ele juntamente com o verbo amar.

Thursday, July 30, 2015

Vida e Morte



Ela questionava tudo e todos, naquele momento o alvo de suas perguntas era ela mesma. Qual a razão subconsciente que a impedia de encarar a verdade? Em que mundo vivia? Por que o sentimento havia sido esse em toda sua vida?

Ela era inadequada. Finalmente precisava admitir, não cabia nos estereótipos sociais, quanto mais se esforçava para parecer parte do quebra-cabeças, mais sofrimento, dor e raiva vinham a superfície.

O mundo a aborrecia, as repetições de erros,  a recusa que era feita de admitir erros, corrigindo rotas e recomeçando sob novos conceitos. Ela não via um bom fim naquilo tudo, como não vira um bom fim nela mesma. O fim sempre seria uma benção, ela tinha absoluta certeza disso, um tipo de balsamo para a alma, para a mente. A continuidade naquele mundo era de absoluta insensatez. Ela queria retornar, ao começo, a essência, a inconsciência.

Suas escolhas sempre foram ditadas pelo meio no qual vivia. Sempre procurando esconder sua diferença, sua incapacidade de abrir todos os sentimentos, de ser gentil como era dito que se deveria ser. Não havia gentileza nela, nem religiosidade, nem aceitação do que ela não conseguia acreditar: destino. Em toda a vida que ocorrera até agora, forma poucos os momentos nos quais foi ela mesma. Raros instantes, onde sua real natureza veio a superfície e brilhou.

O brilho atraiu, como toda luz faz, insetos, dos rasteiros aos voadores, dos que tinham a crença de que poderiam apropriar-se dela, de seus pensamentos, de quem ela era. Tola ideia, tolos seres. Cada qual com sua própria sombria mente, seres esquecidos de seus fracasso, apoiados na aparência de quem pensavam ser. Ela não tolerava essa gente, essa simplicidade quase nojenta, essa inutilidade rotineira de fazer o que é socialmente aceitável.

Não parava de lembrar dos momentos de intimidade sexual que tivera com a prima na juventude. Também não conseguia esquecer do assedio dos tios com suas mãos pesadas, lábios gordurosos e palavras agressivas. O odor de álcool ainda acompanhava essas lembranças. As tias com suas intrigas, invejas e desdém por quem ela era, ou elas pensavam que era, e os jovens que se contentavam em tocar as mesmas musicas, repetindo o mesmo refrão. Era tedioso.

Depois vieram outros, alguns com a intenção de colocá-la em seu lugar. Na cozinha, na senzala de alguma casa grande, onde, repetidamente ela deveria agradecer a oportunidade da escravidão. Ela tentara, mas a rebeldia insistia no conceito de fuga. As brigas com o parceiro eram titânicas, ele não retrucava, ela crescia em ódio e rancor, dor e desalento.

Não estaria nesse abandono, nessa incompreensão dela mesma, o fim de tudo? Perdas irreparáveis de vidas, de esperança e finalmente de qualquer sentimento construtivo dirigiram suas energia na edificação de um fim, de um termino para toda aquela vida cinza. Levaria consigo o indefeso ser que gerara. O levaria para o fogo da exterminação, de forma que ele não tivesse que conviver com a dor a habitava. Escrutinante dor, sem solução aparente..
Outros caminhos se apresentaram, como flechas de fogo e luz. Ela os seguiu em desespero, apenas para chegar no mesmo lugar de onde havia saído.

Agora sentada, parada no tempo, o desespero tomava conta do corpo que se recusava a envelhecer, da mente que não queria acreditar na inutilidade de tudo que enfrentara até agora.  Estava novamente abraçada com a rotina que tanto odiava, dormia com a fraqueza que lhe era repugnante e olhava para o futuro sem nenhuma expectativa, apenas com ânsias de encontrar a dama de negro.

Em algum lugar distante, outras pessoas enfrentavam suas bruxas, seus pecados. Distante da verdade que ela aceitara, questionavam a razão de tanto sofrimento, tanta dor. A capacidade de criticar seu passado tirava deles a perspectiva de seu presente. Como acreditavam em crime e castigo, boas ações e recompensas, deveriam aceitar que tudo que ocorria era fruto de suas próprias atitudes e, sim dele também, do medo da punição. Ela, ao contrario, não tinha medo. Fizera o que tiver que fazer, vivera como fora possível, mesmo não tendo sido o desejável. Ela estava pronta.


A porta sempre fecha no final do dia, nas costas de seu maior carrasco. Todos os dias ela enfrenta as mesmas acusações, os mesmos delirantes questionamentos e ácidas ironias. Ela tem se importado com isso cada vez menos. Faz o que lhe pedem, age como esperam e aguarda, a cada noite e cada dia, espreita e deseja.